🗑️ O lixo da cia aérea falida que vale 10 milhões de dólares
Na edição #28, escrevi que as empresas de IA estão comprando livros de papel aos milhões e depois jogando fora, porque texto impresso antes de 2022 virou o último estoque de texto humano não contaminado por IA.
Dessa vez, temos mais um caso curioso. A Spirit Airlines, companhia aérea low cost dos EUA, parou de voar em maio, depois de duas falências seguidas e US$ 8 bilhões de dívida. Os aviões foram vendidos, os slots de aeroporto também. Em 14 de agosto foi a leilão um lote que ninguém esperava: os arquivos internos da empresa. O Google venceu com um lance de US$ 10 milhões.
O que foi a leilão não é o que a Spirit vendia
Nada de perfil de passageiro, nada de cartão de crédito, nada dos 50 milhões de registros do programa de fidelidade. O Google fez questão de dizer isso em nota: não está comprando dado de cliente. Segundo os documentos do leilão, o que ele levou foi outra coisa:
A operação: receita, operação de aeronaves, auditoria e fraude, RH, estratégia, gestão de projetos. Preços de 7 bilhões de voos de concorrentes e cerca de 7,5 bilhões de transações desde 2008.
A conversa: 100 milhões de e-mails, 500 milhões de mensagens do Teams, 17 milhões de arquivos no OneDrive, 20 milhões no SharePoint.
A construção: 516 repositórios com cerca de 30 milhões de linhas de código próprio.
Repare no que isso significa. O dado do consumidor — aquele que a gente passou tratava como o ativo mais precioso da empresa — foi explicitamente descartado. O que valeu dez milhões de dólares foi a papelada interna.
Pense no que um modelo de IA já sabe fazer. Ele redige um e-mail impecável, preenche a planilha, escreve o código. O que ele não sabe é o que acontece entre essas coisas. Como um atraso de manutenção no aeroporto vira quarenta e dois e-mails, três threads no Teams, uma planilha atualizada às duas da manhã e uma decisão que ninguém documentou direito. Quem foi acionado primeiro. Quantos dias a coisa ficou parada. O que foi improvisado quando o processo oficial não deu conta.
É a diferença entre comprar o livro de receitas de um restaurante e comprar trinta anos de filmagem da cozinha. A receita qualquer um tem. A filmagem mostra o que realmente acontece quando falta ingrediente no meio do horário de pico — e isso ninguém publica na internet, porque ninguém publica o próprio caos interno.
Esse é o insumo que falta para o próximo passo da IA corporativa. Agentes não travam por não saber escrever. Travam por não saber como uma companhia de verdade encadeia uma decisão.
🥞 Panqueca vs. Humanoide
Travis Kalanick, fundador do Uber, passou boa parte da carreira usando software para transformar uma indústria física. Com o Uber, colocou uma camada digital sobre carros, motoristas e cidades e mudou a economia do transporte. Agora ele quer ir além. Sua nova empresa, a Atoms, usa IA e robótica para automatizar o próprio mundo físico — começando por alimentação, mineração e transporte. Em julho, levantou US$ 1,7 bilhão numa rodada liderada pela a16z, com o próprio Uber entre os investidores.
E o jeito como ele pensa essa oportunidade traz uma provocação para o atual boom da robótica: talvez estejamos prestando atenção demais aos humanoides.
Nem todo robô precisa parecer com a gente
Kalanick não é contra humanoides. Eles fazem sentido quando uma máquina precisa realizar várias tarefas em ambientes projetados para humanos — numa casa, o mesmo robô dobra roupa, lava louça e tira o lixo, e copiar nosso formato ajuda.
Numa operação industrial, a lógica muda. Se você precisa produzir mil panquecas por hora, poderia colocar dezenas de humanoides diante de frigideiras — ou construir uma máquina desenhada para fazer panquecas em escala. A segunda opção será muito mais eficiente.
É a aposta da Atoms em robótica especializada: em vez de criar um robô universal e procurar tarefas para ele, começar pelo problema e construir a máquina certa para resolvê-lo.
O objetivo não é automatizar uma tarefa. É redesenhar a operação.
Isso fica claro na alimentação. A ambição não é robotizar uma cozinha, mas fazer com que uma refeição preparada e entregue custe quase o mesmo que comprar os ingredientes no mercado.
Para isso é preciso mexer no sistema inteiro. Como comida precisa ser produzida perto do consumidor, a visão combina imóveis espalhados pelas cidades, produção robotizada e entregas autônomas. Um prato de delivery que custa US$ 15 chega ao cliente por US$ 30 — e nenhuma dessas peças, sozinha, muda essa conta.
Aqui está a característica que define a Atoms: não colocar IA em cima de um processo existente, mas perguntar como ele seria desenhado se máquinas pudessem decidir e agir sozinhas desde o início. É a mesma conclusão da edição #27, quando vimos que adicionar agentes não conserta processo ruim — só que aqui o processo é feito de concreto e caminhão. É a mesma cabeça que ele usava no Uber: a vantagem nunca vinha de uma inovação isolada, e sim de pequenas eficiências se acumulando até a conta da operação ficar estruturalmente diferente.
As melhores oportunidades talvez rendam as piores demos
A mesma lógica aparece em mercados menos visíveis. Na mineração, a Atoms quer automatizar máquinas gigantes — algumas, carregadas, passam de 900 toneladas. Em logística, Kalanick cita uma grande fornecedora de alimentos dos EUA que gasta US$ 3 bilhões por ano apenas com gente movendo pallets de empilhadeira.
Um humanoide dançando ou dobrando uma camiseta rende um ótimo vídeo. Uma empilhadeira autônoma, nem tanto. Mas a segunda talvez seja a oportunidade econômica muito maior. Na edição #25 falamos que a próxima fase da IA seria feita de energia, robôs e aço. Kalanick é o operador dessa tese com US$ 1,7 bilhão no caixa.
Ele resume o próprio campo de atuação de um jeito que ajuda a ver o tamanho: praticamente tudo ao nosso redor foi cultivado, minerado, fabricado ou transportado. Automatizar esses quatro verbos é mexer numa parcela enorme da economia.
🐴 O cavalo não sabe que a bolsa existe
Há cerca de 70 mil anos, o Homo sapiens deixou de ser apenas mais um animal e começou a dominar o planeta. Para Yuval Noah Harari, a melhor explicação para essa virada é a linguagem (tese central do seu famoso livro Sapiens). Foi ela que permitiu que milhões de desconhecidos cooperassem — e que construíssemos com palavras toda a infraestrutura invisível que organiza a sociedade. Um país existe porque existem leis. Uma empresa, porque existem contratos. Dinheiro é um número num sistema contábil.
A linguagem virou o sistema operacional da civilização. E é por isso que Harari olha para a IA com preocupação: pela primeira vez, surgiu no planeta algo que pode ficar melhor com palavras do que nós. O que acontece quando ela começar a operar melhor do que nós as instituições que construímos com linguagem?
Antes dos robôs, vêm os burocratas
É comum imaginar a tomada de poder pela IA como cena de ficção científica: máquinas entrando no mundo físico e substituindo pessoas. Harari aposta em algo menos cinematográfico. "Não espere ver robôs assassinos correndo pelas ruas. Serão os burocratas de IA."
Construímos sistemas gigantescos para administrar a sociedade, mas nosso cérebro nunca foi adequado para operá-los. Nenhum advogado conhece todas as leis de um país. Nenhum investidor acompanha todas as transações de um mercado. Ainda assim fomos nós que administramos tudo isso porque, como brinca Harari, somos ruins em finanças — mas os cavalos são ainda piores. Até agora, não havia concorrência.
A IA chega justamente com o que esses sistemas exigem: lê volumes enormes de informação, lembra de tudo, cruza dados e não precisa escolher entre analisar dez contratos ou dez milhões deles. Ela é uma nativa da burocracia. Uma coisa é usar isso para ajudar um humano a decidir. Outra é deixar a IA decidir.
De ferramenta a participante
Uma prensa pode imprimir um livro, mas não acorda numa terça-feira e decide que livro quer publicar. Uma bomba pode destruir uma cidade, mas não escolhe qual atacar. São ferramentas. A ambição por trás dos agentes é outra: damos um objetivo e esperamos que eles decidam como alcançá-lo.
Uma IA pode recomendar onde investir seu dinheiro. Mas e se ela tiver a própria conta bancária? Pode ajudar um CEO a administrar uma empresa. Mas e se a empresa não precisar mais de um CEO humano?
Por isso Harari acredita que uma das discussões mais importantes dos próximos anos talvez aconteça no Direito: devemos permitir que uma IA tenha personalidade jurídica? Empresas já podem ter dinheiro, contratar e processar alguém — mas sempre houve humanos decidindo por trás delas. Com agentes, essa premissa começa a desaparecer.
O mundo continua funcionando. Só paramos de entendê-lo.
Imagine um mercado financeiro povoado por agentes que nunca dormem e passam o tempo todo analisando, negociando e criando estratégias. Eles poderiam não só fazer mais rápido o que fazemos, mas construir sistemas complexos demais para qualquer cérebro humano acompanhar.
É aqui que Harari usa uma analogia: a vida de um cavalo hoje é profundamente determinada pela economia: quanto custa mantê-lo, onde vive, para que serve e até quantos existirão. Mas o cavalo não sabe que o sistema financeiro existe. O que decide a vida dele está além do que o cérebro dele alcança.
O risco não é ficarmos menos inteligentes. É que os sistemas ao nosso redor fiquem complexos rápido demais. Continuaremos usando bancos, assinando contratos e trabalhando em empresas. Tudo vai continuar funcionando — só que talvez a gente deixe de entender como.
O problema talvez não seja criar uma inteligência que entende o mundo melhor do que nós. Talvez seja criar uma inteligência capaz de construir um mundo que nós mesmos já não conseguimos entender.
A questão sobre personalidade jurídica parece filosófica, mas não é. A Argentina já começou a respondê-la em juridiquês. Em maio, o governo Milei enviou ao Congresso um projeto que cria uma categoria de empresas operadas por agentes de IA. Se aprovado, seria a primeira legislação do mundo desse tipo — ainda que o texto exija um humano responsável pela supervisão.
Vale guardar o episódio porque ele provavelmente é só o começo. A pergunta sobre o que uma IA pode ser não será respondida apenas em laboratórios ou debates sobre consciência. Será decidida em leis, tribunais e contratos. E provavelmente decidiremos o que uma IA pode fazer muito antes de concordarmos sobre o que ela é.
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