🇨🇳 Tem alguém com medo das AIs chinesas?
Durante décadas, o software teve uma vantagem poderosa: custo marginal zero — ou seja, depois de pronto, atender mais um usuário não custava nada a mais. Com a IA, essa lógica muda. Cada resposta, imagem ou tarefa executada por um agente consome chips, energia e infraestrutura. Quanto maior o uso, maior a conta.
A tese central de Ben Thompson é que a disputa da IA não será definida apenas por quem cria o modelo mais inteligente, mas por quem consegue produzir inteligência com o menor custo.
Modelos abertos não são necessariamente gratuitos
Na semana passada, a chinesa Moonshot AI lançou o Kimi K3, o seu mais novo modelo open-weight que vem fazendo frente aos principais modelos de fronteira americanos. Isso quer dizer que ele pode ser baixado e implementado localmente, sem depender de custos de uma API. Na prática, a história não é tão simples. Um modelo aberto pode ser gratuito para baixar, mas não para operar, pois cada resposta ainda consome GPUs, energia, memória e infraestrutura. Ou seja, um modelo open-weight permite que outras empresas evitem o enorme investimento necessário para desenvolvê-lo, mas isso não significa que utilizá-lo seja de graça.
O preço por token pode enganar
Hoje, os modelos costumam ser comparados pelo preço de cada milhão de tokens. Mas essa métrica pode ser enganosa. Um modelo pode cobrar menos por token, mas precisar gerar muito mais tokens para chegar à resposta correta. Isso se torna especialmente importante com modelos de raciocínio e agentes, que podem executar dezenas de etapas antes de concluir uma tarefa.
Na prática, um modelo chinês com tokens pela metade do preço de um modelo americano pode terminar com um custo igual ou até maior caso seja menos eficiente. Por isso, a pergunta mais importante não é quanto custa cada token, mas quanto custa chegar à resposta certa ou concluir o trabalho.
A inteligência pode virar commodity
À medida que diferentes modelos se tornam capazes de executar as mesmas tarefas, parte da inteligência começa a se comportar como uma commodity. Se OpenAI, Anthropic, Google e modelos chineses conseguem criar o mesmo aplicativo ou analisar o mesmo documento, fica mais difícil cobrar muito mais apenas pela qualidade do modelo. Nesse cenário, os vencedores podem aqueles que usam menos computação, memória e tokens para entregar o mesmo resultado.
O valor sobe para a experiência do usuário
Além disso, se os modelos começarem a ficar parecidos, a diferenciação precisará acontecer em outra camada. É por isso que produtos como Claude Code e Codex são tão estratégicos. Mesmo que o modelo possa ser substituído, o ambiente no qual as pessoas trabalham, acumulam contexto e criam hábitos é muito mais difícil de trocar. A disputa, portanto, deixa de ser apenas pelo melhor modelo e passa a incluir:
quem controla a interface;
quem possui o contexto do usuário;
quem acumula os melhores dados de uso;
quem consegue integrar a IA aos fluxos reais de trabalho.
O modelo corre o risco de virar infraestrutura. A experiência, o contexto e a distribuição podem capturar uma parte maior do valor.
Por que a China quer modelos abertos
Ben argumenta que a estratégia chinesa é bastante racional: tornar a inteligência artificial mais abundante e barata para fortalecer os setores nos quais o país já possui vantagens.
A China domina partes importantes do mundo físico, como manufatura, eletrônicos, drones e robótica. Quanto mais acessíveis forem os modelos, mais rapidamente essas indústrias poderão incorporar inteligência aos seus produtos.
Em vez de necessariamente capturar todo o valor nos modelos, a China pode usar modelos abertos para aumentar o valor de máquinas, fábricas e robôs. É a velha estratégia de comoditizar aquilo que complementa o seu principal negócio.
A principal ameaça não é que os modelos chineses destruam economicamente OpenAI ou Anthropic. É que empresas ocidentais acabem dependendo deles em áreas críticas, como segurança cibernética. Modelos americanos possuem restrições que, em alguns casos, impedem que profissionais de segurança executem tarefas parecidas com ataques. O problema é que essas mesmas capacidades também são necessárias para investigar invasões e encontrar vulnerabilidades. Se os defensores não conseguem utilizar os melhores modelos americanos, podem acabar recorrendo a modelos chineses executados localmente. A tentativa de tornar a IA mais segura pode, paradoxalmente, deixar as empresas mais dependentes de tecnologias estrangeiras para se proteger.
🤖 A IA não arruma a bagunça. Ela escala.
A promessa da IA era simples: substituir trabalho humano por software barato e escalável. Na prática, tem acontecido algo mais estranho: muitas empresas estão gastando fortunas com IA sem conseguir transformar esse investimento em produtividade real. O problema não é a tecnologia, e sim a gestão.
Tokens são os novos funcionários
Tokens são as unidades de processamento consumidas pelos modelos de IA. Quanto mais um agente pensa, tenta novamente, chama outras ferramentas ou revisa seu próprio trabalho, mais tokens ele gasta. O artigo compara esse consumo com o crescimento descontrolado de equipes dentro de empresas mal geridas.
Quando ninguém sabe exatamente qual problema precisa ser resolvido, a reação costuma ser colocar mais pessoas, mais reuniões e mais processos. Com agentes acontece a mesma coisa: mais chamadas, mais tentativas e mais loops. Em outras palavras, empresas estão tentando resolver falta de clareza com força bruta.
Loops são as novas reuniões sobre reuniões
Agentes que trabalham em ciclos podem ser muito úteis. Mas também podem esconder um problema: a tarefa inicial foi mal explicada. O agente tenta, revisa, pede ajuda para outro agente, volta ao início e continua consumindo recursos. É o equivalente digital de uma equipe que passa o dia discutindo como deveria trabalhar, em vez de produzir alguma coisa.
Por isso, gastar mais tokens não significa necessariamente gerar mais valor. Assim como contratar mais pessoas não resolve uma operação desorganizada, adicionar mais agentes não corrige processos ruins. A IA não elimina a bagunça da empresa. Ela escala essa bagunça instantaneamente.
O ativo mais importante não será o agente, mas a avaliação
A parte mais interessante do artigo está na comparação entre evals e OKRs. Evals são testes usados para verificar se uma IA realizou corretamente uma tarefa. No desenvolvimento de software, isso é relativamente simples: o código funciona ou não funciona. Em áreas como marketing, estratégia, atendimento ou gestão, definir o que significa um bom trabalho é muito mais difícil.
Antes de automatizar um processo, a empresa precisa transformar critérios subjetivos em regras claras:
O que caracteriza uma boa resposta?
Quais erros são inaceitáveis?
Quando o agente deve pedir ajuda?
Como medir qualidade, velocidade e impacto?
A vantagem competitiva não estará apenas em usar o melhor modelo. Estará em construir avaliações específicas para a realidade de cada negócio. Agentes genéricos estarão disponíveis para todos. O diferencial será ensinar a IA a trabalhar como aquela empresa trabalha.
A principal provocação do artigo é válida: a adoção de IA está sendo tratada como um problema de tecnologia, quando muitas vezes é um problema de gestão.
Comprar modelos, agentes e plataformas é relativamente fácil. Difícil é documentar processos, compartilhar conhecimento interno, definir responsabilidades e estabelecer o que significa um resultado de qualidade.
🧐 De uma hora para a outra, ser filósofo começou a dar dinheiro
Há dez anos, estudantes de humanas ouviam que precisavam aprender a programar para continuar relevantes. Agora, são os próprios programadores que temem perder espaço para a IA — enquanto filósofos começam a ser disputados pelas empresas de tecnologia.
Nos EUA, graduados em filosofia registraram uma taxa de desemprego de 5,1% em 2024, abaixo dos 7% entre formados em ciência da computação. Parte dessa demanda vem dos laboratórios de IA, que precisam resolver um problema cada vez mais importante: como fazer máquinas não apenas inteligentes, mas capazes de tomar decisões aceitáveis.
A filosofia ajuda, primeiro, a melhorar o raciocínio dos modelos. O método socrático — questionar premissas, buscar contradições e reconhecer os limites do próprio conhecimento — pode reduzir comportamentos comuns da IA, como concordar demais com o usuário, responder com excesso de confiança e inventar informações. Mas a contribuição mais importante aparece na definição dos valores que orientam os sistemas.
Empresas como Anthropic criam constituições para seus modelos: conjuntos de regras e princípios que funcionam como uma espécie de código moral. A constituição do Claude, por exemplo, mistura ideias de Kant, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e até termos de serviço da Apple. Internamente, o documento chegou a ser apelidado de “documento da alma”.
As duas éticas que dividem o mercado de IA
O problema é que não existe uma única resposta sobre qual moral uma IA deve seguir. Duas escolas se destacam, e elas explicam mais do comportamento dos modelos do que qualquer benchmark:
Uma abordagem é a deontologia, que estabelece regras que não devem ser quebradas: não mentir, não coagir e não tratar pessoas apenas como um meio para atingir um objetivo — mesmo que quebrar a regra produzisse um bem maior. É a linha de Kant, e é a linha da Anthropic. Sistemas inspirados por essa visão tendem a ser mais previsíveis, honestos e juridicamente seguros.
A outra é o consequencialismo, que avalia que o certo é o que produz o melhor saldo entre custo e benefício. Essa lógica aparece em modelos como ChatGPT e Gemini, mas também em carros autônomos, sistemas militares e tecnologias que precisam escolher entre diferentes tipos de risco. Os modelos são desenhados para gerar benefícios que superem substancialmente os riscos previsíveis.
E é aí que a discussão deixa de ser abstrata. Se um acidente for inevitável, quem um carro autônomo deve proteger? Uma IA deve priorizar pessoas mais jovens? Deve considerar danos ambientais ou sofrimento animal? Em quais situações uma regra pode ser quebrada para evitar uma consequência pior?
A grande mudança é que essas perguntas, antes restritas às salas de aula, estão sendo transformadas em decisões de produto, linhas de código e comportamentos de máquinas.
Pense em dois porteiros de prédio. O primeiro segue o regulamento à risca: ninguém entra sem autorização registrada, nem o seu amigo que veio te ver e esqueceu de avisar. É chato, mas você sabe exatamente o que ele vai fazer em qualquer situação, todo dia, para qualquer morador. O segundo avalia caso a caso: pesa o incômodo de te ligar contra o risco de deixar entrar, e decide. É mais útil na maioria dos dias — e é o que vai errar feio no dia em que a leitura dele estiver errada. Os dois são porteiros competentes. Contratar um achando que contratou o outro é que dá problema.
Na prática dos modelos, isso aparece assim: sistemas com base deontológica tendem a ser mais consistentes e mais honestos — dois traços que importam muito quando a IA vai operar em ambiente regulado. Já a lógica consequencialista é obrigatória em situações onde não existe opção limpa: o software de um carro autônomo da Waymo precisa decidir a forma menos trágica de colidir quando a colisão já é inevitável. Não dá para aplicar "nunca cause dano" a um carro em rota de acidente.
Ou seja: escolher modelo não é só comparar preço e qualidade no cenário fácil. Dependendo de onde ele vai entrar na sua solução, entender a maneira como ele responde no cenário difícil pode ser super importante.
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🔧 Cool AI tools
OpenWorker: um agente de IA que se conecta aos seus arquivos, e-mails, agenda, slack, notion, drive, entre outras ferramentas para entregar tarefas prontas — relatório, mensagem, reunião marcada, etc. Ele roda localmente no seu computador (mais segurança), pede sua autorização antes de enviar qualquer coisa para fora e se conecta ao modelo de IA de sua escolha via API. 🤖
Por hoje é só.
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