📕 A IA compra livros para fugir da IA

À medida que a internet é inundada por conteúdo criado por Al, as empresas de IA estão redescobrindo uma fonte de dados muito mais confiável: livros impressos publicados antes da popularização dos LLMs.

A lógica é simples: livros costumam passar por autores, editores e revisores. Por isso, oferecem um conhecimento mais organizado, denso e confiável do que grande parte do conteúdo disponível na internet. Além disso, obras publicadas antes de 2022 têm uma vantagem especial: foram escritas antes da explosão de textos gerados por IA.

A IA está contaminando sua própria fonte de aprendizado

Os modelos atuais são treinados com enormes quantidades de conteúdo retirado da internet. O problema é que uma parcela crescente desse material já foi produzida por outras IAs. Quando um modelo aprende repetidamente com conteúdo artificial, erros, simplificações e padrões ruins podem se acumular. É como tirar uma cópia de outra cópia várias vezes: a qualidade tende a piorar. Esse risco é chamado de colapso do modelo. Livros antigos funcionam, portanto, como uma espécie de reserva de conhecimento humano “pré-contaminação”.

Surgiu uma nova corrida pelos livros físicos

A ISBNdb, empresa que mantém a maior base de dados de livros do mundo, passou a ajudar laboratórios de IA a comprar de mil a um milhão de exemplares por pedido. Sua base permite localizar obras específicas, evitar duplicações e organizar a aquisição em grande escala.

Livrarias também começaram a perceber pedidos incomuns: centenas de livros comprados de uma vez, sem relação clara entre os temas e muitas vezes sem preocupação com o preço. O único padrão aparente era que todos possuíam ISBN (um código numérico padronizado pela empresa que funciona como o RG do livro), facilitando sua identificação e organização. O livro físico, que parecia um ativo ultrapassado, virou matéria-prima estratégica para a próxima geração de modelos.

O paradoxo: preservar o conhecimento destruindo os livros

Para transformar milhões de livros em dados digitais de maneira rápida, as empresas estão cortando suas lombadas e passando as páginas por scanners industriais. Depois, os livros são descartados ou reciclados. O processo é mais barato, mas gera uma contradição: obras raras e de baixa circulação podem ser destruídas para que seu conteúdo seja incorporado a sistemas de IA privados.

No caso da Anthropic, um juiz considerou que a criação das cópias digitais podia ser classificada como uso legítimo justamente porque os livros físicos eram destruídos e substituídos pelas versões digitais internas. A ISBNdb usa esse argumento para vender o processo como o encerramento responsável do ciclo de vida de um livro, e não como uma forma de queima de livros.

Por muito tempo, navios de guerra alemães afundados no mar da Escócia foram a fonte mais importante de aço para fabricar certos equipamentos sensíveis à radiação. Isso porque, depois dos lançamentos de bombas atômicas em 1945, a radiação no ar subiu no mundo inteiro — e a siderurgia moderna produz aço puxando ar atmosférico, então todo lote novo passou a carregar um traço dessa contaminação. A única saída era usar metal de antes da bomba. E lá estava ele, intacto, numa frota que a própria tripulação alemã afundou em Scapa Flow em 1919 — aço de um mundo anterior à contaminação.

Os livros publicados antes de 2022 são a mesma coisa. Para as AIs, eles não valem pelo que dizem, e sim por quando foram escritos — antes de a própria IA contaminar o texto do mundo. São a reserva de baixa radiação do conhecimento humano.

🤖 Quem vai ter a superinteligência?

Para Mark Zuckerberg, a grande pergunta sobre o futuro da inteligência artificial não é se a superinteligência existirá, mas quem terá acesso a ela. Ela ficará concentrada nas mãos de algumas empresas e governos ou será distribuída como uma ferramenta capaz de ampliar o potencial de qualquer pessoa?

A tese é um contraponto direto à visão de que uma tecnologia tão poderosa só poderia ser segura se fosse controlada por poucas instituições. Para Zuckerberg, a história sugere justamente o contrário: concentrar poder demais raramente termina bem.

A principal contribuição da IA não será automatizar, mas inventar

Grande parte da discussão sobre IA ainda gira em torno das tarefas que ela poderá executar no lugar das pessoas. Zuckerberg acredita que esse é apenas o começo. O impacto mais profundo virá da capacidade de ajudar cada pessoa a descobrir e criar coisas novas: encontrar um tratamento para uma doença, desenvolver um produto, melhorar um negócio ou transformar uma ideia em empresa.

Hoje, usamos IA principalmente para perguntar. No futuro, ela poderá participar ativamente da invenção da resposta. Essa mudança é importante porque automação e invenção produzem efeitos econômicos muito diferentes. A automação tende a substituir atividades existentes. A invenção cria novas atividades, mercados e possibilidades.

Pense num supermercado. Trocar o caixa por um totem de autoatendimento é automação: a mesma operação, com menos gente. Criar o delivery de mercado é invenção: um mercado que simplesmente não existia antes, com entregadores, aplicativos e centros de distribuição que também não existiam. A automação redistribui uma atividade que já existe. A invenção cria atividade nova. É a diferença entre uma economia que encolhe e uma que se expande.

Distribuir inteligência também é uma forma de distribuir poder

Zuckerberg usa uma analogia interessante: imagine que apenas uma pessoa tivesse acesso a um advogado superinteligente. Ela teria uma vantagem enorme sobre todas as outras, mesmo quando estivesse errada.

Agora imagine que todos tivessem esse advogado. Nesse cenário, a tecnologia não eliminaria os conflitos, mas equilibraria as forças. Pessoas, empresas e instituições poderiam se fiscalizar mutuamente com ferramentas igualmente poderosas.

O argumento é que a segurança da IA não viria apenas de controlar um sistema central, mas de evitar que qualquer agente se torne poderoso demais. Assim como nas democracias, o equilíbrio dependeria de contrapesos.

Mais empreendedores, não necessariamente menos empregos

Zuckerberg também rejeita a ideia de que a superinteligência inevitavelmente destruirá a maior parte dos empregos. Isso dependerá de como ela for usada. Se a IA for aplicada principalmente para cortar custos e substituir pessoas, o impacto econômico poderá ser negativo. Mas, se funcionar como uma infraestrutura acessível para ampliar capacidades, ficará muito mais fácil criar empresas sem grandes equipes ou enormes quantidades de capital.

Uma pessoa com uma boa ideia e um conjunto de agentes de IA poderá ter capacidades que antes exigiam departamentos inteiros. O resultado poderia ser uma economia mais descentralizada, com mais pequenos negócios e mais pessoas trabalhando por conta própria, em vez de dependerem de grandes organizações.

O artigo de Zuckerberg sai numa semana em que o governo dos EUA discute:

  1. Restringir modelos open-weight — IAs que podem ser baixadas e rodadas localmente, na sua própria infraestrutura (falamos sobre o tema na edição #27);

  2. Sancionar a destilação — o ato de treinar um modelo novo usando as respostas de um modelo já pronto, como quem aprende assistindo o professor resolver os exercícios em vez de estudar o livro. É o centro da polêmica da semana: a Casa Branca acusou a chinesa Moonshot de ter destilado o modelo mais avançado da Anthropic para construir o Kimi K3, o Tesouro falou em sanções, pesquisadores contestaram a acusação e Pequim respondeu falando em hegemonismo de IA;

  3. Criar um mecanismo de freio para o desenvolvimento de IA.

Quatro dias antes do artigo, em 24 de julho, 25 empresas — Meta entre elas — pediram por escrito que o governo não restringisse modelos open-weight. Uma semana depois, já passam de 230 signatários.

E não é coincidência que todo mundo tenha resolvido se manifestar agora: 1º de agosto é o prazo que a Casa Branca deu a si mesma para definir a partir de que ponto um modelo de IA passa a ser tratado como questão de segurança nacional — e o que o governo vai poder examinar antes de ele ser lançado. A briga não é sobre filosofia. É sobre qual régua vai valer a partir de amanhã.

🐬 Conversar com golfinhos é só o começo

Scott Belsky reúne diferentes sinais sobre como a IA pode transformar nossa relação com animais, marcas, empresas, política, trabalho e até com a nossa própria atenção. Apesar de parecerem temas separados, todos apontam para a mesma direção: quanto mais fácil fica produzir, prever e automatizar, mais valiosos se tornam história, conhecimento exclusivo, curiosidade e julgamento humano.

Podemos começar a entender o que os animais dizem

Pesquisadores estão usando grandes volumes de sons de animais para treinar modelos capazes de identificar padrões de comunicação. A ideia é que, no futuro, possamos compreender melhor o que outras espécies estão tentando expressar. Imagine conversar com golfinhos que exploram regiões profundas dos oceanos ou com aves que atravessam o planeta seguindo rotas migratórias que ainda não entendemos completamente.

Esses animais percebem partes da natureza às quais os humanos não têm acesso. Eles poderiam, por exemplo, ajudar a antecipar desastres naturais, explicar fenômenos ambientais ou revelar informações que nunca conseguiríamos descobrir sozinhos.

Mas também podem existir consequências menos óbvias. Descobrir o que nossos pets realmente pensam pode não ser tão agradável quanto parece. Talvez o cachorro que chamamos de melhor amigo do homem só mantenha essa reputação porque a conversa acontece em uma única direção. Os gatos, brinca Belsky, já conseguem deixar sua opinião sobre os humanos bastante clara mesmo sem IA.

Além disso, a comunicação com animais poderia rapidamente se transformar em uma vantagem geopolítica. Já existem relatos de golfinhos equipados com câmeras para atividades militares. Países capazes de extrair informações da vida animal teriam acesso a uma nova fonte de inteligência científica, ambiental e estratégica.

O tempo pode se tornar o maior diferencial de uma marca

A IA está tornando muito mais fácil criar produtos, conteúdos e novas empresas. Quando qualquer pessoa consegue lançar uma marca rapidamente, história e consistência ficam mais difíceis de copiar. Uma empresa nova pode reproduzir um produto, uma estética ou uma campanha. O que ela não consegue fabricar do dia para a noite são décadas de reputação, especialização e confiança.

O exemplo mais forte é a Hermès. Antes de se tornar conhecida por suas bolsas, a empresa passou cerca de 70 anos produzindo arreios, selas e equipamentos para cavalos. Somente depois aplicou esse conhecimento em couro a malas, artigos de viagem e, finalmente, bolsas.

A tese é simples: quanto mais fácil se torna produzir alguma coisa, mais valorizamos aquilo que exigiu tempo, foco e trabalho humano. Por isso, marcas devem falar cada vez mais sobre sua história, seus processos e o trabalho artesanal envolvido no que vendem. Empresas antigas também podem emprestar sua herança para novas categorias de produtos.

A verdadeira disputa pode ser pela nossa atenção

A IA tornará os algoritmos ainda melhores em nos mostrar aquilo que prende nossa atenção. O problema é que isso pode reduzir o tempo dedicado a curiosidades, experiências diferentes e ideias fora do mainstream.

Isso nos mantém informados sobre o assunto do momento, mas reduz o tempo disponível para seguir curiosidades pessoais, explorar ideias estranhas e descobrir assuntos que ainda estão fora do centro das discussões.

Belsky propõe observar em qual de três modos estamos operando:

  1. Modo estático: quando apenas navegamos pelas redes e consumimos conteúdos que reforçam o que já sabemos;

  2. Modo crescimento: quando buscamos novas ideias, experiências e referências que expandem nossa visão de mundo;

  3. Modo criativo: quando usamos essas referências para produzir algo novo, que também pode servir de inspiração para outras pessoas.

As ideias mais originais muitas vezes surgem de interesses aparentemente inúteis ou incomuns. São justamente essas bordas que, no futuro, podem se transformar no centro de uma nova tendência. A maior ameaça da IA talvez não seja substituir diretamente nossa criatividade. Pode ser ocupar toda a atenção necessária para que ela apareça.

Nesse sentido, a verdadeira disputa entre humanos e máquinas não seria apenas pelo trabalho, mas pelo controle da nossa atenção. Se os algoritmos decidirem tudo o que vemos, nossa visão de mundo tende a ficar cada vez mais parecida com a de todos os outros.

⚡ Quick Hits

  • A Fish Audio lançou um novo modelo que promete clonar uma voz a partir de apenas 5 segundos de áudio. E ainda por 1/6 do preço da ElevenLabs, um dos líderes em modelo de voz. Impressionante! 🗣️

  • O Apple Watch acabou de ganhar um grande aliado! A Granola acabou de lançar o seu app que grava reuniões direto do relógio, e depois resume para você. Depois de um ano de pins e pingentes de IA que ninguém quis usar, a resposta parece ser mais simples: usar o aparelho que já está no seu braço. ⌚

  • Agora dá para transformar qualquer PDF em um podcast em vídeo com dois apresentadores. A HeyGen lançou o Video Podcast: você joga um documento ou link, e sai um programa com cenário de estúdio, cortes de câmera e B-roll em poucos minutos. 🎬

  • Escreva o alfabeto num caderno, tire uma foto e receba a sua letra virando fonte de computador. É o que faz uma skill do Claude Code criada por Radhika Sharma. Bem legal! ✍️

  • Claude Of Duty: um prompt de três parágrafos gerou um jogo de tiro em primeira pessoa com 55 mil linhas de código. O Claude Opus 5 escreveu tudo — textura, som, física, inimigos — sem usar nenhum arquivo pronto. 🎮

🔧 Cool AI tools

  • Buzz: acabou de ser lançado por Jack Dorsey, cofundador e ex-CEO do Twitter, para resolver o copia-e-cola entre o chat do time e a ferramenta de IA. É um Slack open source onde os agentes ficam no canal junto com as pessoas, com acesso ao mesmo contexto e ao código do projeto. Não cobra API própria: você pluga o Claude Code ou o Codex que já usa. 🐝

Por hoje é só.

Obrigado por ler o AI Around the Horn.

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