⬛ AI como protagonista da Black Friday
A OpenAI acabou de dar mais um passo para mudar o jogo do e-commerce. A empresa lançou o Shopping Research, uma ferramenta dentro do ChatGPT desenhada para transformar a busca por produtos em uma experiência de consultoria personalizada. Ao contrário da busca tradicional (onde você recebe uma lista de links), o ChatGPT agora age como um agente: ele entrevista você sobre suas preferências (tamanho, orçamento, uso), lê reviews em tempo real e compara opções.
Como funciona?
Conversa Interativa: Você diz o que está procurando (por exemplo, "um vestido por menos de 300 reais" ou "o melhor presente para um corredor").
Quiz Rápido: O ChatGPT faz algumas perguntas para entender suas prioridades, como tamanho, orçamento ou funcionalidades.
Estilo Tinder: Quando ele começa a mostrar os produtos, você pode deslizar para a direita se gostar ou para a esquerda se não gostar, ajudando a IA a refinar as sugestões.
Quase simultaneamente ao anúncio do ChatGPT, a Perplexity lançou sua nova experiência de compras para usuários nos EUA. A empresa introduziu um sistema focado na descoberta e não apenas na busca. A promessa é uma IA que entende contextos complexos (ex: "Qual a melhor jaqueta se eu moro em São Francisco e pego a balsa para o trabalho?") e elimina a necessidade de clicar em dezenas de links. A nova experência inclui também um botão “comprar” direto no chat, através de uma integração nativa com o PayPal. Por enquanto, o botão só está disponível para algumas lojas parceiras, assim como já acontece no ChatGPT.
O timing não é coincidência
Além desses lançamentos, nos últimos dias Google e Microsoft também introduziram novas features em suas AIs com foco no e-commerce. No fundo, as propostas são muito parecidas e ainda estão muito no começo. E o timing não é por acaso: essa será a primeira Black Friday que teremos a IA como protagonista.
Pela primeira vez, estamos observando um fenômeno onde as taxas de conversão vindas de fontes de AI estão superando as de fontes tradicionais no varejo dos EUA (escrevi sobre isso na Newsletter #15). Mas isso é apenas o começo de uma enorme mudança. Como mostra o gráfico do BCG (abaixo), ainda estamos migrando da simples descoberta de produtos via AI para a tentativa de realizar a compra dentro do próprio chat (Purchase-in-chat).

O objetivo final — o lado direito do gráfico — é o Agentic Commerce, onde agentes de IA conversam diretamente com agentes das marcas para negociar e comprar por você, quase sem sua intervenção. Provavelmente, na Black Friday do ano que vem, estaremos mais próximos dessa realidade autônoma.
Mas para chegar lá, os dois lados têm desafios enormes pela frente:
Para o varejo/e-commerce:
1. Perda de controle da jornada — Se o cliente conversa só com a IA, quem fica com o relacionamento? As marcas perdem a chance de fazer upsell, cross-sell e construir lealdade.
2. O novo SEO — Como garantir que seu produto apareça nas recomendações da IA? Otimizar o site para o Google Search era uma coisa; otimizar para o ChatGPT é outra completamente diferente.
3. Compressão de margem — Se a IA sempre busca o melhor preço para o consumidor, a competição por preço fica ainda mais brutal.
4. Dados na mão dos outros — Os dados de comportamento do cliente agora ficam com OpenAI ou Perplexity, não com o varejista.
Para as empresas de IA:
1. Confiança — O consumidor precisa acreditar que a recomendação é genuinamente a melhor, não a que pagou mais para aparecer.
2. Monetização sem viés — Como ganhar dinheiro com isso sem comprometer a neutralidade? Publicidade tradicional (quem paga aparece) mata a proposta de valor.
3. Responsabilidade — Se a IA recomenda uma loja fraudulenta, de quem é a culpa?
4. Infraestrutura e integrações — Esse é talvez o maior gargalo técnico. Para o Agentic Commerce funcionar de verdade, as empresas de IA precisam resolver várias camadas ao mesmo tempo - a) Dados em tempo real: Preços e estoque mudam a cada minuto, especialmente em eventos como Black Friday. Isso exige APIs conectadas a milhares de varejistas — cada um com seu sistema diferente. Scraping em escala é frágil e impreciso; b) Checkout nativo: Para o usuário comprar sem sair do chat, é preciso integração com gateways de pagamento, sistemas de frete, gestão de carrinho e endereço. É por isso que tanto ChatGPT quanto Perplexity ainda limitam o botão "comprar" a poucas lojas parceiras; c) Latência: Compra é impulso. Se a IA demora para responder, o usuário desiste. Em picos de tráfego como Black Friday, a infra precisa aguentar milhões de consultas simultâneas sem travar.
A Black Friday desse ano está só começando, mas já estou ansioso para saber como será a de 2026.
🍟 O McDonald’s não matou a alta gastronomia
Controle vs. Velocidade
Quando pensamos em criação de conteúdo hoje em dia, existem dois grupos de pessoas: Criadores de Conteúdo e Artistas. A grande diferença entre eles é o que estão dispostos a sacrificar:
Criadores trocam controle por velocidade.
Artistas nunca abrem mão do controle.
1. Os Criadores de Conteúdo
Mentalidade: aceitam trocar controle criativo por velocidade. O conteúdo que fazem é um meio para atingir um objetivo (engajamento, vendas, visualizações), não um fim em si mesmo.
Por que velocidade importa: marcas modernas precisam agir em tempo real e os criadores precisam alimentar as redes sociais, o YouTube e os algoritmos. O conteúdo nas redes é efêmero — o que bomba hoje é esquecido amanhã. Por isso, "bom o suficiente" já resolve.
A Ferramenta: Eles amam AI (ChatGPT, Nano Banana, Canva, Sora, etc.) porque essas ferramentas nivelam o jogo e permitem criar muito, muito rápido. Agora qualquer pessoa consegue criar algo razoável, mesmo sem habilidades técnicas.
O Mercado: Hoje, 80-90% do mercado criativo é voltado para esse público (a Creator Economy).
2. Os Artistas
Mentalidade: a criação é o objetivo final, não um meio. Eles têm uma imagem clara do que querem alcançar e vão usar qualquer ferramenta necessária — mas sempre mantendo o controle total.
Por que controle importa: entregar a criação para uma IA baseada em prompts seria como pedir a um escultor que trabalhasse sem as mãos. O toque pessoal, as decisões minuciosas, cada detalhe faz parte do processo artístico.
Valor que entregam: artistas criam "unidades de cultura" — histórias cheias de significado que nos emocionam, nos fazem pensar e expandem nossa compreensão do mundo.
A Ferramenta: Ferramentas para explorar mais possibilidades rapidamente (para encontrar a melhor ideia) e estímulo para assumir mais riscos criativos.
O erro que as pessoas cometem nos debates sobre AI
Fast Food vs. Alta Gastronomia: A IA vai inundar o mundo com conteúdo rápido e barato (AI Slop). Mas dizer que a IA vai acabar com a arte é como dizer que a criação do McDonald's acabaria com a alta gastronomia.
Valorização do Humano: Justamente porque haverá muito conteúdo artificial e rápido por aí, as pessoas vão desejar ainda mais histórias humanas, bem trabalhadas e artísticas. A barra para o que consideramos uma história "extraordinária" vai subir.
Ari Emanuel, dono do UFC e uma das figuras mais influentes do entretenimento mundial, concorda com essa visão. Com a IA, haverá mais conteúdo do que nunca e o custo marginal de produção cairá para zero. Se o conteúdo é infinito e gratuito, ele deixa de ser um diferencial. O valor, então, migra para os extremos daquilo que não pode ser replicado:
Curadoria e gosto — saber o que é bom em meio ao oceano de mediocridade
Experiência presencial — o ao vivo, o tátil, o único
O "meio do caminho" — conteúdo genérico tentando parecer especial — vai virar commodity. Elon Musk disse certa vez a Emanuel em um jantar: “o ao vivo não pode ser disruptado”.
E parece que ele está levando isso à risca. Enquanto todo mundo corre para o digital, Emanuel corre para o físico, investindo pesado em lutas, torneios de tênis e festivais.
Ele traz três reflexões fundamentais:
Somos Animais Sociais: Como o online transborda abundância, o ato de sair de casa para ver algo ao vivo torna-se um evento quase sagrado. O digital é abundante; a presença física é a nova escassez.
A Experiência como Status (o efeito Tiger Woods): Ari conta uma história fascinante sobre Tiger Woods. Quando ele ganhou seu primeiro torneio de golfe, a multidão aplaudiu. Quando Tiger ganhou a segunda vez, a multidão não aplaudia mais com as mãos — eles estavam ocupados segurando celulares para gravar o momento. As pessoas pagam caro por experiências ao vivo não só para vivê-las, mas para mostrar que estavam lá. O evento ao vivo virou a moeda social definitiva. Você compra o ingresso caro para criar o seu próprio conteúdo exclusivo.
A Economia da Experiência Premium: Se o básico é barato, o topo da pirâmide não tem teto de preço. Pessoas ricas não querem apenas ver o jogo; elas querem o acesso impossível. Pagar US$ 300 mil num Super Bowl? Tem quem pague. US$ 50 mil para sentar com o dono do UFC? Tem fila. O público paga preços irracionais por exclusividade, comunidade e memórias táteis.
Ari Emanuel não está apostando contra a IA. Ele está apostando a favor de algo que a IA nunca vai substituir: nossa necessidade humana de pertencer, compartilhar e dizer "eu estava lá".
⚡ Quick Hits
O Google lançou na semana passada o Gemini 3 e o Nano Banana Pro (nova AI de imagem), e as pessoas estão criando coisas incríveis:
Infográficos complexos a partir de prompts super simples.
A evolução do infográfico - o infográfico animado! 📊
Agora é possível criar imagens perfeitas (inclusive de ângulos nunca vistos) apenas dando datas e as coordenadas de um local. Impressionante!
Mais um exemplo. Dessa vez de um evento um pouco mais antigo…
Um usuário mostra como transformar a planta de um imóvel em um vídeo ultra-realista com tour completo pelos ambientes. 🏠
Justine Moore, da a16z, mostra o passo a passo para criar vídeos super divertidos de reformas de ambientes em time-lapse.
Ben Evans publicou sua tradicional apresentação semestral de tendências de tecnologia. Leitura obrigatória. 📖
Agora é possível criar chats em grupo no ChatGPT, abrindo novas possibilidades para trabalho em equipe, educação e projetos criativos. 💡
🔧 Cool AI tools
Reve: plataforma grátis com interface visual super intuitiva e prática para geração de imagens via prompts de texto.
Por hoje é só.
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